É pique, é pique!
E a menina fez dois anos e nós, claro, precisávamos comemorar. Sim, sou uma moça chegada a comemorações. Gosto de comemorar tudo: de emprego novo de amigo a rescisão trabalhista: tudo é motivo para se reunir, falar asneiras e dar boas risadas da vida. E é claro que o aniversário de dois anos da pequena não poderia passar despercebido. Adicione a essa minha empolgação com festas uma alta dose de nostalgia ao lembrar aquelas feitas em casa quando éramos criança. Coloque uma porção generosa de pavor a aquelas “festas prontas” nas quais os pais encomendam, pagam uma fortuna e recebem em uma “caixa lacrada” um kit do qual não podem tirar nem pôr nenhum item sequer. Por fim, acrescente aí uma madrinha que acha (acha não, tem absoluta certeza) de que podemos fazer tudo (tudo!!) a mão. O resultado disso? Uma festa cheia de amor para a qual trabalhamos mais de mês, mas que ao final nos pareceu linda de viver. Festa trabalhosa, prazerosa e muito mais em conta do que aquelas parceladas em 12 vezes que as crianças pequenas, muitas vezes, nem curtem. Espero que as ideias daqui sirvam de inspiração para vocês colocarem a mão na massa aí também e que depois possam dizer com orgulho: “Eu que fiz”.
A tempo: obrigada a todos os nossos queridos amigos e familiares que botaram a mão na massa e fizeram a festa acontecer. Não seríamos nada sem vocês. <3
A decoração
Eu sou um tanto minimalista, a madrinha da Alice, por sua vez, é megalomaníaca, do tipo de gente que acredita que todas as ideias, por mais malucas que sejam, são viáveis. Não, não são apenas viáveis, são também muito simples de executar (hahahaha). Assim, está feita a nossa parceria. Uma com os pés no chão e a outra, com a cabeça nas nuvens.
O tema escolhido era fazendinha, virou zoológico e, por fim, terminou em floresta. Alice, como a maioria das crianças pequenas, ama bichos, grandes, pequenos, de todas as espécies, e achei que esse amor daria uma festa linda, colorida e que permitia mil possibilidades “decorísticas”. Definido o tema, bora pensar na décor. Fui atrás de bichos para locação, daqueles bem grandes que enchem os olhos dos pequenos, mas o nosso espaço não era muito grande, a verba curta e achei que a menina não ia se interessar tanto assim por eles. E, sim, eu estava certa. Foi então que a madrinha dela veio com a ideia de fazermos animais de feltro para usar na decoração da mesa que posteriormente, poderiam ser usados como brinquedo. Genial. Compramos feltro de várias cores e mão na massa. Cortamos os moldes e, todos os dias, quando sobrava um tempinho, eu costurava um.
O próximo passo foi migrar rumo a 25 de março, onde compramos descartáveis mega coloridos, toalha de mesa, cataventos que usamos como centro de mesa, bandejas de Poá, bexigas e velinha. Diante da pouca variedade de painéis, decidimos confeccionar um, inspirado no Rei Leão. Para ele usamos TNT e color set. Um amigo com mão boa para desenho ficou responsável pelos animais. Uma árvore feita de bixigas, cheia de macaquinhos pendurados, ajudou a compor a parede do salão do prédio, onde ficaria a mesa do bolo. Como o espaço não tem mesa, desci a minha mini-mesa de jantar mesmo, que não preencheu muito o espaço, mas deu conta de acomodar o bolo e os brigadeiros. Comprei ainda copinhos transparentes e colei uma fitinha em cada um deles (super fácil e fez todaaa a diferença).
O cardápio
Uma questão que me fez refletir bastante antes de decidir o que servir na festa foi a razão pela qual, pelo menos aqui, sempre celebramos com comidas cheias de gordura e pouco saudáveis e o que é que, afinal, estamos dizendo para as crianças com isso. Pensa comigo: todos os dias as incentivamos a comer verduras, legumes e frutas, mas quando fazemos uma festa só servimos refrigerante, salgados fritos e as empanturramos de doces (inclusive com saquinhos para levar para casa, de lembrança). Isso quer dizer que a felicidade mora ali: no que é proibido no dia a dia? Na gordura? No excesso de açúcar? Not! A felicidade não mora na comida (uma verdade difícil, eu sei) e é de pequeno que a gente aprende isso.
Também não acredito em extremos, por exemplo, servir salada em festa infantil ou fazer brigadeiro de beterraba, desculpem os naturebas mas, para mim, beira o exagero. Acredito sim é no meio termo. Penso que é possível oferecer comidinhas gostosas e saudáveis sem para isso ter que abrir mão do bom e velho docinho, por exemplo.
Para beber, nada de refrigerante. O padrinho fez suco natural, de três sabores diferentes, e colocou em suqueiras (daquelas com torneirinha) e cada um se serviu a vontade. Tem quem não sirva bebida alcoólica em festa infantil, acho que até faz sentido, mas não servir na nossa seria hipocrisia já que em todas as reuniões bebemos uma cervejinha e nessa celebração não seria diferente, oras. Portanto, uma gelada caiu super bem.
Os salgadinhos foram todos assados, nada de fritura (todos deliciosos feitos pela mãe do padrinho). Lanchinhos de mini-pão francês recheados com carne louca e outros de pão de forma recheados com patê de atum com cenoura e beterraba (feitos pela mamãe) compuseram o cardápio. O bolo foi de cenoura com chocolate, receita sucesso da vovó. De doces, apenas os brigadeiros (que, na minha opinião, não podem faltar jamais, heheh). Fizemos também salada de frutas com banana, maçã, mamão e uva. Coloquei numa vasilha grande com tampa, decorei os copinhos com uma fitinha fofa e cada um se serviu também. Mas o sucesso ficou mesmo por conta do milho cozido (Alice comeu umas quatro espigas).
As crianças comeram de tudo um pouco. Alguns adultos reclamaram da falta da saudosa coxinha e da presença de salada dentro da empada, mas engoliram as mágoas e bola para frente (hahahahaha). Alice curtiu cada minuto da festa, se lambuzou, brincou, pulou, enfim, fez mesmo a festa. E o sorriso dela fez cada minutinho de cuidado, de preparativos e de cansaço valer a pena.
Que venham os próximos dois anos, meu amor, com muitos balões, amigos reunidos e festa, muita festa! Afinal, sua presença em nossas vidas é algo que merece ser comemorado todos os dias, religiosamente.
Fotos by: Vicente Pimenta e Renato Martins
O novo quarto
Planejo há um tempo mostrar o novo quarto da Alice aqui. Agora vai! (eeeeeeeeeee).
Muita coisa mudou desde o primeiro quarto. Mudamos de casa, mudei de ideia (várias vezes) e, bem, a menina cresceu, né gente? Nada mais justo que o quarto crescesse junto com ela. Só que não. Em relação ao espaço físico, o quarto fez foi diminuir já que nos mudamos do ap alugado para um ap menor (do qual somos donos e proprietários. Ahuahauhau)
Não bastasse o desafio de encaixar todas as coisas num ambiente menor, ainda me sobravam ideias para criar espaços para a criança brincar, explorar e se descobrir (sim, a vida aqui é fácil mesmo. Só que não). Assim, o jeito foi mandar alguns móveis embora e manter apenas o essencial. E lá se foram o berço, a cômoda e a tal poltrona de amamentação (itens que para falar a verdade, nem sei porque faziam parte da casa já que desde a nossa despedida nunca senti falta de nenhum deles).
Com apenas o essencial (armário, colchão no chão e uma prateleira) conseguimos abrir espaço para objetos que, no meu entendimento, são realmente importantes para ela como essa estante aí, onde os brinquedos ficam a sua disposição, e organizadinhos. Como ela tem um pouco mais de brinquedos que esses, fazemos um rodízio periódico entre eles para que ela mantenha o interesse em todos e consiga explorar cada um.
Os DVDs, CDs e a maior parte dos livros ficam ali na estante a disposição dela também. Assim, quando quer ler uma história ou assistir algo, ela vai lá, pega e traz para a gente. Na prateleira mais alta – onde ela ainda não tem acesso – ficam os itens de higiene pessoal (em breve vou disponibilizar pente e alguns acessórios, ali pertinho do espelho, para ela mesma se arrumar. #nota mental).
Diferente do outro quarto, cuja cor predominante era o rosa, nesse procurei explorar as cores. As paredes ganharam um amarelão, o lustre é azul (com nuvens e avião) e a prateleira branca e sem graça, ganhou um vermelhão lindo (eu que fiz. ho ho ho). O espelho na altura dela é sucesso garantido: toda vez que a vestimos, ela corre para se ver e fica se espiando e fazendo caretinhas.
Quanto aos quadros, bom, a regra geral para colocação de quadros é mantê-los na altura dos olhos, como os olhos donos do quarto são baixos, os quadros respeitam isso. O colchão no chão dá a ela mobilidade para ir e vir, pular na cama, rolar… enfim, fazer o que bem entender, com segurança.
O poema (lindo de morrer) foi escrito, letrinha por letrinha com tinta e pincel fininho, pela sua madrinha. A lousinha ocupou o espaço entre o armário e a porta. Dentro do saquinho de tecido, ficam os gizes e o apagador. O tapete serve para evitar o contato direto da criança com o chão, como o nosso piso não é frio, não precisava, mas achei meio triste o colchão no chão pelado, então o tapete está aí mais para dar um “chalme” mesmo.
Também adaptamos algumas coisas na casa para facilitar a vida dela: instalamos um cabideiro baixinho na entrada da casa para ela colocar o seu casaco e a bolsa quando chegar da rua. No banheiro, uma cestinha baixa garante o acesso aos brinquedos de banheira (itens de higiene ainda não ficam a disposição, mas logo, logo, estarão também). #nota mental: arrumar um banco para facilitar o acesso a pia.
Ainda faltam algumas coisinhas como uma mesa e uma cadeira para “desenhá”, roupas e fantasias a disposição para ela se vestir sozinha e um colchão maior – já que a menina anda um tanto crescidinha para esse. Também pretendo fazer um barradinho colorido para essa cortina que anda bem sem graça e forrar a parte interna do armário com algum contact bem fofo. Mas aos poucos a gente chega lá. =D.
A tempo: nossa inspiração foi o modelo de quarto montessoriano. Se alguém quiser conhecer mais sobre o assunto, recomendo esse artigo.
Rapidinhas
Estamos no carro, mamãe e papai conversando.
- Mamãe?
- Oi amor…
- Mamãe?
- Fala, filha…
- Mamãe
- Oi linda…
- Mamãe, mamãe, mamãe (a menina apertou o botão do repeat 365 vezes)
Aí, após responder a cada uma das vezes que ela chamou, canso, e resolvo esperar ela parar por conta própria.
- Mamãe? Mamãe? MAMÃEEEEEEEE…
Até que, bem baixinho, ela solta:
- Não fala…
…
Então ela olha para a girafa de estimação e vai nomeando as partes do rosto dela:
- Mamãe, olha: ôlio, bôca, olelha…
- E essa parte aqui, filha, como chama?
- Fom-fom.
…
- Sai, sai…
Digo que não é assim que se fala, que não pode mandar ninguém sair.
Ela então, com a cara mais lavada do mundo, solta:
- Sença, sença mamãe, sença.
…
- Alice, qual fruta você quer?.
Pergunto, mostrando a fruteira.
Ela então coloca a mão no queijo e o dedo indicador no nariz, franzindo a sobrancelha :
- Pensar, péla, mamãe, péla. Hummmmm…
- Pensou?
- Zá penxei!
…
E então ela descobriu que o beijo é uma arma secreta com grande poder de persuasão.
– Mamãe, colo.
- Ah, filha… a mãe dá colinho já já, deixa eu terminar de lavar essa louça aqui, rapidinho.
- Mamãe, beijo, beijo. Smack, smack. Colo!
…
Pela manhã, é ela quem me desperta.
- Mamãe, vem, sala, sala. Vem mamãe, vem!
- Calma, Alice, tô indo.
Digo isso sem me mexer.
- Vemmmmmm..
Já que é assim, com tamanha delicadeza, né? Faço o que ela pede: levanto cambaleante, ainda sem saber quem sou, para onde vou ou qual a origem da vida. Ela então pega os meus óculos.
- Óquilux, mamãe, põe.
Ainda de olhos fechados, boto os óculos, só para não criar confusão. Levanto e sigo em direção ao banheiro, ainda guiada pela menina.
- Xixi, mamãe?
- Sim, xixi.
Ela olha as minhas mãos.
- Papel? Pegou?
- Não, Lili, ainda não.
- Aqui! diz, me entregando o papel higiênico.
ps. Com o tempo passa depressa, não? Já me sinto uma senhora precisando de cuidados para realizar tarefas básicas.
….
Fazendo yoga.
Tento segurar os pés com as mãos em uma tentativa vã.
- Mamãe, cosegue? Mão, pé?
- Não consigo, Lili.
- Lili cosegue.
- Ah é? Faz, filha. Encosta as mãos nos pés.
E ela vem e encosta as duas mãozinhas nos meus pés.
- Cosegui!
Brincar é preciso
Tenho feito vários ajustes na rotina, com base nas coisas que realmente me fazem bem e as que nem tanto. Ando menos preocupada com os outros, menos ansiosa e menos preguiçosa também. É uma busca diária essa de abandonar hábitos antigos e abrir espaço para o novo, mas vale a pena. Estando mais feliz, obviamente deixo a cria mais relaxada e feliz também. Pensar fora do quadrado é cansativo para caramba, mas é bom demais. Recomendo. Assim, questões que estavam esquecidas por mim há um tempo, e que me faziam falta, também estão sendo retomadas. Em breve conto novidades.
Uma dessas mudanças de hábito tem sido no sentido de tornar os meus dias mais leves, com pausas para cafunés e ataques de cosquinhas, afinal, o que pode conter mais leveza do que o brincar? Talvez seja aí mesmo que nós, os adultos, tenhamos nos perdido: no exato momento em que paramos de correr, de se surpreender com as pequenas coisas e… de brincar!
Por quê deixamos de valorizar o brincar e passamos cada dia mais a achar que isso é perda de tempo? E como se não bastasse termos abandonado a brincadeira, ainda tentamos impor uma rotina dura para as nossas crianças, ocupando o seu tempo com tarefas direcionadas e chatas, argumentando que estamos ajudando no seu desenvolvimento e por quê não dizer? Criando pessoas de sucesso. Mas será que estamos realmente dando o nosso melhor hoje para ajudá-los a ser pessoas melhores? Digo, pessoas honestas, parceiras, equilibradas, amáveis (e amadas) e felizes? A meu ver, dar espaço para que a infância seja, de fato, vivida, é um passo muito importante nesse processo.
Dia desses fiquei bastante surpresa ao ouvir uma mãe contar que foi à reunião de pais da escola do seu filho, um menino de 4 anos, e perguntou para a professora qual tempo as crianças tinham livre para brincar. Antes que a professora respondesse, um pai tomou a pergunta como um insulto e prontamente se defendeu:
- Brincar?? Se você quer que o seu filho brinque, deixa ele em casa. Escola é para aprender.
Sim, porque ao brincar não se aprende, só se aprende com caderno e lápis na mão. E pra muitos pais (não sei se é o caso desse, enfim) brincar é deixar a criança lá sozinha, a deus dará, enquanto se ocupa de outra atividade mais importante. Só que não. Muitas vezes, nós, os adultos, ignoramos o aprendizado contínuo dos pequenos, subestimamos a sua inteligência e esquecemos que é pelo exemplo que eles aprendem a ser, a como tratar as pessoas na rua, a como tratar os amigos e professores na escola. Não oferecemos nenhum exemplo positivo, mas em contrapartida, sentimo-nos no direito de lhes fazer cobranças como: agradeça, seja educada, seja amoroso. Nós damos o que recebemos, e é isso. Apenas isso. Por isso, acredito que brincar com os nossos filhos, além de lhes dar o direito de ser crianças, traz também lições valiosas de caráter que eles levarão para a vida toda. Não é fácil, claro que não é, sempre temos mil coisas muito importantes para fazer, mas é preciso nos dar esse direito. Por aqui, tenho dado o meu melhor nesse sentido e posso dizer? Tem sido uma delícia.
…
Brincando de massinha
- O que você quer fazer, Alice?
- O Muuuuuuuu (Não é uma vaca, Muuuuu é o Murilo, padrinho dela)
Feito.
Olha aqui Murilo: você.
- E agora, filha?
- A Keitia (Também conhecida como Katy, madrinha dela).
Feito.
Olha você, Katy.
Temos também o Bê (Breno, seu primo), a tia Lúcia (sua tia e cuidadora), nessa ordem.
- E que parte é essa que você colocou aí na tia? O que é isso, Alice??
- Bucho, bucho!!
Hahahahahahahahahah
….
Outra brincadeira bem legal que fizemos envolveu creme de barbear e corante (eu não achei corante no mercado e acabei colocando suco em pó, mas não ficou tão bom o efeito). Alice quis uma colher e disse que ia fazer bolo. Assim, acabaram saindo cupcakes fresquinhos, sabor laranja, limão e morango. Ho ho ho.
E a boba da mãe achou que ficaria só nos cupcakes mesmo. Doce ilusão.
Porque se sujar faz bem para a menina (e ajuda a mãe a trabalhar essa relação conturbada que ela tem com a bagunça) hahahahaha.
Das coisas que você me ensina
Filha, quando você era apenas um bebezinho banguela, eu te aconchegava no meu colo, ou te deitava de bruços em cima de mim e ali ficava, durante horas, te olhando e divagando… como será que vai ser o seu primeiro passo? Qual vai ser a primeira palavra? E a voz dela?? Será que vai ser fininha ou mais firme? Será que ela vai rir das minhas gracinhas? Será que vai me amar o tanto que a amo??
Ai Alice, hoje posso dizer: me sinto tão orgulhosa de você, filha! No mês que vem você completa dois anos. Dois lindos anos de casa cheia, pouco sono e coração explodindo de amor, de muito amor!!
Você é uma menina muito feliz e muito carinhosa, filha. Você repete tudo, tudinho o que a gente fala, até mesmo a entonação que uso para te chamar, você imita, meio assim ó: Fí-lhaaaaa!! Só anda descalça para cima e para baixo e abraça a gente como se abraça um grande amor do qual se está separado há anos. Tudo em você é muito intenso: a fome dói, o sono irrita muito, o não é não e pronto e o sim é urgente, questão de vida ou morte. Se por alguma razão me bate, fico triste, claro, então você me olha preocupada e indaga: – Mamãe, mamãe, que foi??. Digo que você me machucou, então você fala: – beija, mamãe. Seguido de um beijo estalado e de um novo questionamento: – Bem??? Bem, mamãe??
Você me ensinou muitas coisas nesses dois anos, Alice. Aliás, você me ensina todos os dias. Foi você que me mostrou que “mamãe” é a palavra mais doce do mundo, filha. (Desejo que um dia, se você puder e quiser, que também seja chamada assim por alguém e, nesse dia, saberá direitinho do que estou falando). O seu “mamãe” é doce, é urgente, é carregado de amor, filha. Não há coração que não derreta quando ouve você me chamar.
As vezes fico bem brava com a sua teimosia, com essa sua insistência em querer algo, para agora, desse jeito e não daquele ali. Nessas horas me pergunto de onde você saiu assim, tão cheia de opinião e aí, nessas horas, o seu pai entra na história para me lembrar que isso que tanto me irrita em você é tão meu. Você tem muitas características minhas, filha, e é também com você que aprendo a não abandonar os meus quereres, nem dobrar de opinião quando sei que é aquilo que quero e no que acredito.
É você que me mostra o quão as necessidades básicas da vida são urgentes (o sono, a fome, a sede) e o quanto o restante nem é tão necessário assim (nós, os adultos, criamos tantas urgências desnecessárias, filha. Mas, a essa altura da vida, você já deve ter percebido o quanto somos estranhos). É você que nina o meu sono e você que me acorda todas as manhãs, dizendo:
- Mamãe, vem!
- Vou para onde, filha? Fica aqui na cama mais um tiquinho.
- Não, mamãe, vem! Sala, sala, vemmm!!
- Filha…
- Mamá, mamãe, vemmm!! Xixi, xixi, cocô, cocô…
Sim, você é a rainha dos argumentos. E quando penso em não ceder, não dessa vez, você me lança um olhar “a la gatos de botas do Shrek “, com gesto e tudo, e solta:
- Pouco, mamãe, um pouco!
…
Hoje a brincadeira foi vasculhar suas caixas de brinquedos em busca de um tesouro escondido que salvasse a manhã. Você encontrou os brinquedos de praia e decidiu que ia para a praia brincar com eles. Como moramos longe do mar, o jeito foi fazer a nossa praia aqui mesmo, no apartamento.
Traçado o plano, saímos as duas para comprar um bocado de areia no depósito aqui perto. Você fez questão de levar a sacola com os brinquedos e foi o caminho todo pulando, com a sacola em punhos, dizendo para todos que passavam por nós que estávamos indo para a praia. (Não teve um de quem você não arrancou um sorriso, até o rapaz do depósito fez questão de não cobrar pela areia, tamanha a sua felicidade com um punhado dela). Montamos a “paia” aqui na varanda mesmo. Você, se divertiu com a brincadeira e eu, boba, chorei, com mais uma lição de simplicidade que você me ensina.
Obrigada, filha, por entre tantos lares, você ter escolhido o nosso para nascer. Obrigada por dar sentido a mais um dia na minha vida.
Com amor,
Mamãe.
Muito além do peso
Muitos de vocês já devem ter assistido e alguns devem ter ouvido falar mas, talvez na correria do dia a dia, não tenham dado muita atenção. Por isso, faço questão de reforçar aqui: assistam ao documentário nacional “Muito além do peso”, de Estela Renner. É sério! É muito grave!
Não me considero uma pessoa ignorante ou mal informada, mas juro que até assistir ao filme eu acreditava piamente que a obesidade infantil era um mal sofrido pelos norte-americanos (Coitados.. também pudera! Com tanta rede de fast food e bacon no café da manhã…). Vergonhosamente, admito que estava redondamente enganada e, infelizmente, acredito que muita gente, assim como eu, também está.
33% das crianças brasileiras estão acima do peso e uma parcela enorme delas já desenvoveu doenças de adultos como problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2. É de chorar!! Crianças de três, quatro anos que dizem não conseguir jogar bola porque cansa e os ossos doem. Crianças que tem sua expectativa de vida muito reduzida porque nós, adultos, não sabemos lhes dizer o que podem e o que não podem comer, porque não cuidamos da nossa própria alimentação como devíamos e porque achamos bonito dizer que a propaganda só faz a parte dela e que são os pais os grandes e únicos culpados.
O filme promove uma discussão sobre as responsabilidades do governo, dos pais, das escolas e da publicidade. Além disso, traz histórias alarmantes e penosas de crianças que morrem aos poucos com o consumo desenfreado de produtos ricos em gordura, sal, açúcar e aditivos químicos. Produtos esses que chegam em locais remotos do País, onde, incrivelmente, frutas e legumes não chegam.
É muito, muito triste ver pessoas simples e sem acesso à informação de qualidade sendo induzidas a trocar o leite materno por leite em pó porque, acreditam, é melhor. Mas é tão ou mais revoltante ver gente de classe média, pessoas que tem acesso à informação e condições financeiras de selecionar o que coloca nas suas mesas, mandar Toddynho e dinheiro para a criança comprar seu lanche na escola (sem sequer saber o que estão, de fato, comprando) ou dizer que comem todos os dias em restaurantes com a já passada desculpa da falta de tempo de preparar suas refeições. É absurdo! Crianças que tomam refrigerante TODOS os dias e argumentam que quando abrem uma coca-cola, estão abrindo a felicidade (!!!!).
Eu sei que não é fácil. Afinal, existe toda uma indústria e publicitários com excelente formação, tentando, todos os dias, nos convencer de que isso ou aquilo é bom para a saúde, é rico em vitaminas, vale por um bifinho e coisa e tal. É venda de gato por lebre, o tempo inteiro. As porcarias não são mais simples porcarias como eram antigamente, elas recebem nova roupagem todos os dias para parecerem ser o que não são. Precisamos proteger as nossas crianças, sim, mas antes disso, precisamos ter consciência do que é verdade e do que é mentira. Ler rótulos. Consumir alimentos crus. Não acreditar que o suco de caixinha vem com gominhos iguais ao da laranja. Não é laranja, gente! É açúcar, é aditivo químico! Leia o rótulo! Está lá! (às vezes, maquiado, mas está lá).
É uma mudança de cultura, de consciência, eu sei que é. Mas faz-se necessária! Eu não sou nenhuma expert em cozinha natural, livre de agrotóxicos e de industrializados. Mas venho promovendo as nossas mudanças aqui em casa. Comida feita aqui é todos os dias (raríssimas exceções). Refrigerante é item raro, assim como suco de saquinho e de caixinha não tem espaço na nossa despensa. Danoninho, bolacha recheada, nem pensar! Se antes eu usava tempero pronto na comida, assim que descobri a enorme quantidade de sódio que eles possuem, substitui pelo alho que já vem em potinho. Hoje, nem esse mais tem espaço aqui. Tempero minha comida com alho de verdade. E haja sabor, viu? Incomparável! Óbvio que tudo o que é in natura é melhor, mas fomos enganados durante anos e levará mais alguns para irmos tomando consciência do quanto nos tornamos enlatados, mas a gente vai descobrindo, lê uma coisa aqui, assiste um vídeo ali, vai aprendendo e mudando os hábitos.
(Para quem quiser promover também algumas mudanças na sua casa, um post fantástico da Pat Feldeman, aqui).
Agora, se nós adultos, podemos escolher o que comemos, o que cozinhamos e como, não é muita covardia empurrar qualquer porcaria para as crianças??. É violência e ponto. Mais um dado trazido pelo filme: mais de 50% das crianças menores de um ano tomam refrigerante na mamadeira. Crianças menores de um ano!!!!! E comentamos sobre tamanho absurdo com um conhecido (bem formado, com carreira estruturada, sabe até ler e escrever, vejam só), que argumentou: – Mas é muito difícil não dar refrigerante, né?
Sim, é muito difícil mesmo! Deem danoninho, coca-cola, toddynho, ades com produto de limpeza…dê a eles toda a sorte de enlatados, caixinhas e pacotinhos… e depois reclame que ele não come fruta.
Estamos morrendo e matando as nossas crianças.
Hasta la vista, baby
Viajamos sem ela. Quatro dias. E posso dizer? Foi maravilhoso!! (ainda que no terceiro dia eu teria voltado correndo para pegá-la se não estivéssemos em alto mar e impossibilitados de dar meia volta). ahuahauhau
Os dois primeiros dias, viajando de casalzinho, sem bolsas cheias de fraldas, sem horário para voltar, nem para comer, nem para… nada… foram dias mágicos, mesmo! Mas aí a saudade começou a bater e ficávamos os dois olhando as crianças e pensando o que Alice faria se estivesse ali com a gente (o que acontecia sempre que víamos um piolho mais ou menos com a mesmo idade que ela).
Claro que aproveitamos a viagem e na maior parte dos momentos sabíamos que só era possível estar ali porque ela não estava, especialmente quando sentados em volta da piscina tomando uma cerveja ou jogados no mar de água tão, mais tão gelada que não teria coragem de jogar ali nem mesmo meu pior inimigo (tá, pensando bem, eu jogava sim).
Mas eis que no primeiro dia de viagem, estou eu, linda e rica, dormindo o sono dos justos, quando ouço uma voz vinda do além:
- Amor, vamos ver o amanhecer?
- Hã???
- O amanhecer, amor, vamos lá em cima ver?
Mal consigo entender onde estou, quem sou ou de onde vem aquela voz tão distante, mas ainda assim consigo esboçar uma frase simples:
- Que horas são?
- 4 e meia, amor.
Não posso acreditar! Ele me acordou 4h30 da madrugada para ver o amanhecer?? Mas que merda é essa de lugar que o sol nasce tão cedo!! Lá em casa ele só nasce as 7h (e olhe lá!).
Reúno todos os cacos de paciência e respondo:
- Vai lá você, lindo. Eu te espero aqui.
Viro para o lado e em menos de um segundo, apaguei de novo. Foi o tempo de fechar o olho, e ouço de novo:
- Amor, olha a foto linda que eu tirei.
O quê??? Foto??? Como assim?? Ele foi e já voltou???
- Oi? Mas que horas são, amor?
- 6 horas.
- Ah… Renato!! Vejo isso mais tarde, tô muito ocupada agora. Por quê você não assiste um pouco de TV?
(hahahaha… sempre quis dizer isso para alguém!!!)
…
Essa coisa de viagem sempre traz algumas lições, né? Pois bem, além da saudade, aprendi com essa que um navio não é o local mais adequado para crianças pequenas (ainda que tivessem muitas crianças pequenas lá). As piscinas (geladíssimas) são de água salgada, as jacuzzis (quentes demais) também não inspiraram muito minha confiança. A comida não é ruim, mas também não tem nada de caseira, nada que eu me orgulhasse de oferecer a ela. Muita batata frita e hambúrguer, poucos legumes e frutas (as que tinham, além de poucas, eram pouco suculentas, como se colhidas verdes, sei lá). Suco de frutas também é algo inexistente a bordo, sobrando como opção ao refrigerante apenas uma água melada sabor artificial que, diziam, era suco. Sei não. Tenho minhas dúvidas. O banheiro minúsculo também torna a hora do banho dos pequenos bastante complicada.
Além disso, existe toda uma vida noturna no navio, com shows de humor, de música, baladas e muitos bares. Atrações que, na maioria das vezes, fazem os adultos pirarem e os pequenos adormecerem de tédio e cansaço. Muitas escadas e falta de grades na parte externa do navio completam o pacote. Para crianças maiores de três anos, já acho que o passeio vale a pena, há atrações para eles (ainda que poucas) e acho que já dá para dar uma desencanadinha da alimentação por alguns dias. Quando muito pequenininhos, acho que nem os pais aproveitam, nem eles, sei lá.
Claro que essas são observações minhas, uma mãe chatinha, muitos pais levam crianças pequenas e pareciam bem tranquilos com elas a tiracolo no navio (inclusive nos shows e nos bares). A questão é bem particular mesmo, eu não ficaria a vontade. Sei que todas essas questões, que me incomodam, me fariam passar a maior parte do tempo preocupada com ela, ao invés de curtir a viagem. O que não seria lá muito saudável nem para gente, como casal, nem para ela.
(Ah… essa história de as crianças irem com os pais a shows dentro do navio, pelo que pesquisei, é bem brasileira. Nos navios que fazem viagens pela Europa, os pequenos (menores de 18 anos) não são bem vindos nem nos teatros, nem no cassinos, e os bebês de fralda, não entram nas piscinas, então, se alguém pretende fazer uma viagem dessas, é bom se informar direitinho antes de embarcar, ok?)
…
Alice ficou muito bem sob os cuidados da vovó, do vovô e da babá. Não poderia ter tido suporte melhor que esse. Quando chegamos, ela me deu um abraço tão apertado, mais tão apertado, que quando lembro dá vontade de viajar de novo, rs. E juro que não é papo de mãe coruja, mas ela cresceu muito durante esses quatro dias (juro) e aprendeu a falar várias palavras novas.
Sempre gostei de viajar, mas sempre amei a sensação de voltar pra casa depois de uma viagem, agora, a sensação de voltar para casa e, de quebra, matar as saudades da cria, tem um sabor muito, mas muito mais especial. Super recomendo a experiência.
Fotos: Renato Martins
E o carnaval se foi…
Sumi. Sumimos. Deve ter sido o carnaval. Ou vai ver acabei perdendo a hora com o fim do horário de verão aqui em São Paulo. Quem nunca? Quem dera!
“Ah… mas agora acabou o carnaval, agora que o ano começa de verdade!”. Ahhhhhh… mas que repulsa tem me gerado essa frase, viu! Para quem o ano começa SÓ agora , cara pálida? O ano aqui começou dia 1° de janeiro, meia noite e um minuto mesmo e, desde então, não parou mais. Nunca mais. E haja energia! Até mesmo para o carnaval!! Sim, porque se antes de Alice o feriado prolongado representava dias de reclusão sem fazer absolutamente nada que não envolvesse sombra e água fresca, depois dela, a agitação também tomou conta desses que outrora eram gratos dias de descanso.
Esse ano o carnaval chegou por aqui com direito a fazenda, vacas que fazem mónnn, galinhas que fazem cocó, frutas e legumes colhidos do pé e banho de lama. Simmm… porque a gente senta para tomar uma cervejinha e quando se dá conta já é tarde demais: lá estão os primos com lama até o último fio de cabelo e achando aquele desfile de bicho-grilice a oitava maravilha do mundo.
Nosso carnaval teve direito até a bloco de bebês e uma menina paulistana comendo areia e gritando enlouquecida: – Paia, paia, paia!!. Até dançar na frente de caixa de som de loja de rua esse dois dançaram (com direito a performance no poste). Alô, Conselho Tutelar, juro que ela nunca viu isso, viu? Não faço ideia de qual cartola tirou essa.
Mas a festa uma hora acaba, a vida entra nos eixos e a folia abre espaço para a rotina nossa de cada dia. E por mais que algumas vezes reclamemos dela, que benção ela nos parece outras vezes, não é não? Hora mais ou menos certa de dormir, hora mais ou menos certa de acordar (oi, horário de verão, volta, seu lindo!), arroz, feijão, salada e macarrão, com direito a fruta de sobremesa. E a menina segue fazendo “Hummmmmmm” para a comida recém-preparada, seja ela qual for. Exceto pelo leite novo, que insisto em tentar substituir, e ela põe na boca e fala: – Uim, uim, mamãe, uim… eca!
Alice tem se mostrado uma feminista de mão cheia, passando a questionar o por quê algumas palavras terminam em “o”, então, decidiu começar essa mudança por si só para quem sabe inspirar outros a seguirem-na. Assim, banho, virou banha, colo, virou cola e carne, carna. Já não aceita que alguém finja que está lendo para ela e, se a pessoa com preguiça só conta sobre as figuras e inventa uma história qualquer, ela prontamente pega o livro, fecha e devolve dizendo: – Lê, lê. O livro da vez é “Chapeuzinho Amarelo” no qual ela presta atenção a cada estrofe, dá risada quando acha que é hora e repete o “pô” do lobo chateado.
Ela já não precisa mais de havaianas com elástico, aprendeu a desligar a televisão, guarda seus CDs e DVDs na caixinha certa e reconhece a nossa casa antes mesmo de virarmos a esquina. Carrega uma bolsa de gato para cima e pra baixo e é só falar de sair que corre para calçar os sapatos, pega a bolsa e fica chamando:
- Mamãe, vem! Papai, vem! Passeá!.
Já sou reconhecida no prédio como a “mãe da Alice” (pra quê nome, né?) e até amizade com o senhor que vende frutas aqui na esquina de casa ela já fez, e passa pela banca gritando: – Fela, fela, êeeeeeeeee!!
Cada dia ela inventa uma coisa nova. Cada dia ela dorme e acorda muitooo maior (alguém me ajuda? Não sei mais o que faço. Buááááá). Mas a verdade é que desde que ela nasceu, meu carnaval nunca mais foi o mesmo, e muito menos os meus dias. E agradeço imensamente a Deus por isso, todos os dias.
Lili
Alice agora se autodenomina Lili. Não é mais mamãe, nem neném, é Lili. A boba da mãe que, grávida, insistia em escolher um nome pequeno para evitar apelidos, entrou na dança e vive pelos cantos chamando a menina de Lili também. E tudo aqui em casa agora “É da Lili, saiiiii”.
Já falei que nos mudamos? Pois é, nos mudamos, dando um pouco de sossego para a vovó e para o vovô que, apesar de terem derramado lágrimas na nossa saída (no caso, a vovó porque o vovô é do tempo em que homem não chora – e segue firme nesse propósito), estavam mesmo precisando de um sossego da gente (e de uma desafogada em seu porão, rs). Já estava mais que na hora de voltar a ter um canto nosso mesmo, e assim se fez.
No dia em que viemos para cá, íamos apresentando a casa nova à menina que olhava boquiaberta cada detalhe, e seguia:
– Ownnnn, fofo!!
(fiquei me sentindo A decoradora. Abafa a carência. hahahaha).
Após olhar cada detalhe e se deliciar com o seu quartinho novo, nos deitamos juntos, os três, e ela, pensativa:
- Vovô?
- O vovô está na casa dele, filha.
- Vovó?
- A vovó também está na casa dela, junto com o vovô, e nós estamos aqui, porque essa agora é a nossa casinha nova, né filha??
- Não, não, Vovô. Vem, mamãe, vem!!
Após mais duas mil explicações, a menina, enfim, naquela noite, adormeceu. A levamos para o seu quarto, acomodamos, cobrimos e adormecemos num sono bem tranquilo, até que… 3 da manhã acordo ouvindo um som no quarto ao lado:
- Não, não. Não, não…
Levanto no pulo e encontro a menina sentada, olhando para os lados e firme em sua negativa
- Que foi, filha? Aqui é a nossa casa, esse é o seu quartinho… olha lá a girafa!
- Ownnn… fofo!!
E pôs-se a apontar cada coisinha:
- Fofo!! Mamãe, owwwnnnn… fofo!
…
Então, dia desses um moço veio instalar o box do banheiro e, devido ao tamanho imenso da casa, só que não, precisou apoiar algumas ferramentas na entrada do quarto dela. A menina ficou completamente indignada diante daquela atitude tão audaciosa e, muito irritada, resolveu brigar com ele, gesticulando:
- Não, não!! É da Lili, da LI-LI!!
E repetidas vezes.
O moço, constrangido, tentava se explicar:
- Eu não vou entrar no seu quarto…
A mãe, envergonhada, ainda que entre risadas, tentava contornar a situação.
- Filha, ele não vai entrar no seu quarto, ele só está apoiando algumas coisas aí.
- Mamãe, não, não… é da Lili, da LI-LI!!
E batia no peito para deixar claro, caso houvesse dúvidas, de que a Lili era ela mesma.
Não teve acordo, só sossegou quando fechamos a porta.
…
A quem interessar possa, atesto que sua capacidade de morder continua intacta (e cada vez mais precisa). Então, certo dia, ela mordeu o pai que, bravo, olhou fixamente em seus olhos e começou a lhe dar uma super lição sobre a impossibilidade de ela seguir assim, atacando as pessoas. Falou, falou, falou, durante bons minutos, olhando em seus olhos, até que a menina apontou para os olhos dele e disse, toda empolgada, como quem acaba de descobrir um grande tesouro:
- Ahhhh… a Lili!!
E caiu na risada.
Ela acabara de ver a si mesma nos olhos dele. E achou graça. O pobre do pai também caiu na risada. Vai ver era cedo demais para uma conversa tão séria.
O tal do tempo
Uma das poucas certezas que tenho neste momento da vida é sobre a necessidade de não tentar acelerar os processos e de não criar expectativas, por exemplo, em relação aos tais “marcos do crescimento” que querem ditar que as nossas crias devem engatinhar com oito meses, andar com um ano, falar com, no máximo, dois, e logo depois, ou assim que chegar o verão, desfraldar. São coisas que não fazem sentido, simplesmente porque datas tão específicas como essas não se aplicam a seres humanos, talvez a máquinas, mas não a nós.
E confesso que isso de dar tempo ao tempo é algo extremamente difícil para mim, que sou a ansiedade em pessoa, prazer! Mas a maternidade tem me ensinado que é preciso tempo, e, acima de tudo, é preciso respeitar o tempo de cada um, porque as crianças têm o seu tempo, cada uma o seu, e elas não fazem parte desse mundo maluco de adultos que correm o tempo todo contra o tempo, como se não houvesse amanhã. As crianças tem tempo, tempo de sobra, tempo para parar e recolher pedrinhas na rua, tempo para escutar latidos de cachorro a quilômetros de distância, tempo para calar e tempo para falar e, tem também o tempo certo de amadurecimento para cada novo passo.
Estou dizendo tudo isso porque Alice começou a falar sobre cocô e xixi. Ela não dava atenção para o fato, até o natal, quando ganhou de sua madrinha um livro que fala sobre o que os bichos têm dentro de suas fraldas… e lá estão todos eles: o cachorro, o cabrito, o porquinho, o potro… cada um com o seu cocô devidamente guardado em sua fralda. Até que o ratinho mostra a sua que, para a surpresa de todos, está vazia. O segredo? Já aprendeu a usar o penico!! (o livro é uma graça, super recomendo, o da Alice é interativo e permite abrir as fraldas dos bichos na medida em que a historia avança. Tão ownnnnn)
Desde que começamos a lhe contar a historia, ela passou a falar sobre xixi e cocô o dia inteiro e, de umas semanas para cá, passou a avisar quando faz cocô e, assim que tiramos a fralda suja, já avisa que quer ver:
- Vê! Vê!.
E não sossega até mostrarmos a fralda suja. E dá risada quando vê o que fez e faz sinal de fedido, imitando a gente. Também quer ir ao banheiro junto comigo, e pega papel, e finge que se limpa, e pede para ver o meu xixi.
Diante de tal proeza, a família já começa a querer lhe apresentar ao penico e a indagar sobre por quê raios ela ainda não tem um. Sigo calada. Sei que é cedo para um passo tão grande para o qual ela não está pronta, afinal, perceber que fez cocô me parece bemmm diferente de ter controle sobre ele ou sobre o xixi, não? Por mais que eu saiba que a vida sem fraldas é muito mais fácil e, também por isso, tentadora, também sei que o tempo agora é de espera, e acima de tudo, de respeito ao tempo dela. Quando chegar a hora de usar o penico, a gente vai saber.
E sigo ansiosa, não mais com ela, nem com as fraldas, mas com a vida. Ansiosa pela nossa mudança de endereço que, enfim, se aproxima. Ansiosa pela nossa primeira viagem sem a cria (será que consigo mesmo? Não sei). Ansiosa pelo final de semana e ansiosa por terminar mais um projeto. Então ela vem até o computador, me pega pela mão e me leva lá fora pra mostrar que aprendeu a sentar no skate e se movimentar com a ajuda dos pés. Sozinha, E por alguns minutos esqueço a ansiedade, e me concentro no agora, e no quanto a vida é leve, e simples. E no quanto perdemos tempo com bobagens.






























